Quando as coisas não concordam…

Concordância

A concordância e a clareza são problemas que tira o sono de muitos jornalistas. Na verdade, eu conseguiria dormir bem melhor se os problemas tirassem o sono dos focas, pra que estes aprendessem enquanto ainda é tempo. Problemas tiram o sono, mas poderemos dormir descansados depois de entender melhor o que escrevemos por aí.

Mais do que os erros de digitação, ou mesmo a troca de um “C” por um “S”, os enganos frequentes quanto à concordância fazem qualquer um voltar em pensamento às carteiras da quarta série, e recordar os tenebrosos ditados que as professoras, com toda a sua “crueldade” e intenção de ensinar os alunos, aplicavam.

Quando a frase não possui concordância entre sujeito, verbo, predicado, acaba por pesar nos ouvidos. É necessário, para uma boa frase, que haja um equilíbrio entre todos os seus elementos. Para que isto aconteça, é bom atentar para alguns pontos:

— Cuidado com o gênero dos substantivos. Uma frase que começa falando de laranjas não pode terminar em maçãs.

—  Os verbos existem para ser conjugados. Aquelas páginas e páginas de Eu/ Tu/ Ele/ Nós/ Vós/ Eles que você escreveu durante toda a vida escolar tinham esta finalidade.

— A quantidade de objetos da frase não se altera, portanto é importante verificar os plurais dos substantivos e adjetivos.

— Importante também saber a hora de parar de acrescentar plurais, porque há palavras que não possuem flexão, como nas frases “Faz duas horas que eu estou esperando” e “Havia muitas pessoas no ônibus”.

— Mais do que isso, é necessário lembrar que o que se fala e ouve pelas ruas não se escreve em lugar nenhum. A típica piada estereotipada do “dois real”, ou “dôrreal” só vai deixar de tirar o sono de muita gente quando for, de fato e tão somente, uma piada.

Boa sorte a todos os focas, pelos textos da vida. “Nóis erra”, mas um dia a gente “aprendemos”.

A crise (ou seria a crase?)

Eu estou à três anos no Mackenzie. Curso jornalismo, gosto bastante de escrever, e…

crase

(Sim, eu estou HÁ três anos no Mackenzie, mas só pelo começo do texto dá para perceber que não fez muita diferença este tempo todo na faculdade…)

Esta cena ocorre com mais frequência do que o leitor pode imaginar. Não sou só eu, mas muitos jornalistas andam por aí colocando crases onde não devem, e se esquecendo de outras que deveriam colocar. Mas, afinal de contas, pra que serve aquele maldito acento invertido, que me faz ficar caçando teclas a cada computador em que escrevo? 

A crase, ou acento grave, é usada “quando existe uma contração da preposição a com o artigo a“. Não dá pra entender? Muito bem, então posso explicar com um exemplo corriqueiro. “Eu vou te levar à farmácia” tem acento grave, por causa da concordância do substantivo com o verbo. Tudo gira em torno do verbo! (Girar em torno é redundância, mas isso fica pra um próximo capítulo). É como os grupinhos que se formam entre as crianças de sete anos, meninos de um lado, meninas de outro. A crase pertence ao grupo das meninas.

Quando o verbo tem um complemento — levar a (algum lugar) — e o objeto é feminino (a farmácia) a crase aparece. Semana passada o jornal X publicou um erro de crase, justo na primeira página. Não é difícil encontrar em algumas lojas a famosa plaquinha que indica que o valor dos pagamentos à prazo terá juros, assim como tenho percebido textos de colegas que possuem erroneamente o tão temido acento…

Quando um erro assim ocorre, o melhor mesmo é sair à francesa…

Assaltaram a gramática…

Os Paralamas do Sucesso já cantavam nos anos 80, alguns visionários já proclamavam há tempos, mas o que antes parecia lenda é hoje um facto: A reforma ortográfica da Língua Portuguesa passará a vigorar a partir do próximo ano.

Terror para os puristas, alívio para os empresários que mantêm negócios com as “terras d’além mar”, a reforma do Português será um desafio a todos os oito países falantes da língua portuguesa: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor Leste.

cplp

Portugal terá cerca de 1,6% de suas palavras com a grafia alterada, em Brasil as mudanças serão menores, apenas 0,45%. Apesar disto as pronúncias das palavras não serão alteradas, os portugueses podem continuar a dizer /óptimu/, apesar de escreverem como os brasileiros, “ótimo”.

Como deve ficar a situação para os jornalistas? As regras devem começar a ser usadas em 2008, mas as antigas palavras ainda serão usadas por algum tempo. Segundo Luís Fonseca, secretário-executivo da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP), haverá uma época de transição, em que tanto as novas quanto as antigas regras serão aceitas. Abaixo estão listadas algumas das novas regras que farão com que 230 milhões de pessoas ao redor do planeta escrevam da mesma maneira.  

As paroxítonas terminadas em “o” duplo, não terão mais acento circunflexo. Os brasileiros a partir do próximo ano vão sentir enjoos nos voos para Portugal.  

– Não se usará mais o acento circunflexo nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos “crer”, “dar”, “ler”, “ver” e seus decorrentes, ficando correta a grafia “creem”, “deem”, “leem” e “veem”.  

– O trema desaparece completamente. A partir de então poderemos comer “lingüiça” sem peso na consciência, e na “sequência” não mais existirão aqueles dois pontinhos por cima das palavras.

– O alfabeto deixa de ter 23 letras para ter 26, com a incorporação de “k”, “w” e “y”.- O acento deixará de ser usado para diferenciar “pára” (verbo) de “para” (preposição).  

– Haverá eliminação do acento agudo nos ditongos abertos “ei” e “oi” de palavras paroxítonas. Sendo assim, os participantes de uma “assembléia” continuarão expondo suas “ideias”, em “heroicos” actos.   

– Em Portugal, desaparecem da língua escrita o “c” e o “p” nas palavras onde ele não é pronunciado. Os portugueses, que já diziam ação, ato, adoção e batismo, poderão também escrever assim.  

– Também em Portugal elimina-se o “h” inicial de algumas palavras, como em “húmido”, que passará a ser grafado como no Brasil: “úmido”.

– Portugal mantém o acento agudo nas letras O e E tônicos que antecedem M ou N, enquanto o Brasil continua a usar circunflexo nessas palavras. Como por exemplo académico/acadêmico, génio/gênio, fenómeno/fenômeno, bónus/bônus.

Nota: O texto tem, propositalmente, algumas palavras em português europeu, nossa redatora não está a ficar louca…