Deus abençoe o consumo

Para quem tem o costume de acompanhar essa coluna vai logo lembrar que no meu segundo artigo (“Quanto maior a altura maior a queda”) eu falei justamente sobre a queda do império americano. Mesmo quem não o leu, mas acompanhou os noticiários nos últimos dias, pode ter a mesma sensação; o império já caiu, e a invasão bárbara já esta mais do que instalada.

Há vários anos tento convencer minha mãe a investir na Bolsa de Valores. Ela sempre muito desconfiada nunca aceitou a minha idéia, e até com razão, pois quem passou pelo plano Collor como ela sabe muito bem o valor do investimento. Por uma vez cheguei até a levá-la ao banco, mas o resultado foi a mesma negação de sempre e com as mesmas frases: “Eu não confio” e “Quando for o seu dinheiro aí eu quero ver você investindo”. Na última semana, então, enquanto jantávamos e assistíamos a um jornal ela virou para mim com um olhar de triunfo, dizendo: “Viu, olha lá o que está acontecendo com quem investiu na Bolsa”.

De fato para os pequenos e recentes investidores do mercado de ações a crise imobiliária nos EUA pegou todos com as calças curtas, e isso porque estávamos todos confiantes que o bicho-papão na verdade não passava de um monstrinho; a quebradeira nas bolsas do mundo todo na semana passada entretanto rendeu prejuízos e muita dor de cabeça para os acionistas, sem citar os consumidores de modo geral.

Para regular a crise qualquer governo elevaria a taxa de juros e aumentaria os impostos em seu país, mas o presidente Bush anunciou um pacote econômico com as medidas inversas: ele abaixou a taxa de juros e os impostos. Se isso fosse em qualquer outro país do mundo as bolsas teriam novamente despencado e sabe-se lá para onde iria o dinheiro aplicado, entretanto somente nos EUA tal pacote poderia fazer sentido e acalmar o mercado mundial.

O consumismo norte-americano, reforçado pelo novo pacote econômico, veio para dar uma sobrevida a esse império já decadente e agonizante. O império irá de fato cair, mas enquanto os “romanos” e os “bárbaros” continuarem consumindo desenfreadamente, todos nós continuaremos olhando e admirando a beleza de Roma.

1808

Há 200 anos chegava ao Brasil a corte portuguesa de D. João VI, na época ainda Príncipe Regente. Um homem que nunca havia sido treinado para ser imperador, assumiu a coroa devido à morte prematura do irmão mais velho, deparou-se com uma situação que não estava pronto para tomar, se alinhar com Napoleão como fizera a Espanha, ou declarar-se aliado inglês.

Cercado de todos os lados D. João tomou a única saída que pôde vislumbrar, a fuga às pressas para uma de suas colônias. Esse ato desesperado acabou por desencadear um dos capítulos mais importantes da história moderna, isso porque a vinda da corte portuguesa representou o primeiro e único contato entre a metrópole e sua colônia.

O encontro acabou por ser um choque para todos, já que o Brasil do século XVIII ainda era muito atrasado mesmo para uma colônia, em especial pelo modo com que os portugueses colonizaram o território, e mesmo a corte lusitana ainda beirava a medievalidade. A união entre metrópole e colônia acabou por ser extremamente produtiva, o Brasil começou finalmente a prosperar; a Inglaterra, que dependia do comércio, conseguiu um novo mercado, e a corte portuguesa escapara de Napoleão.

O resultado foi tão positivo que D. João chegou a considerar a possibilidade de não retornar à Europa, mesmo depois da queda de Napoleão. Fato que não procedeu devido tanto à pressão em Portugal quanto no Brasil.

Interessante é como essa fuga, covarde até certo ponto, acabou por alterar todo o cenário mundial da época. Caso D. João não partisse de Portugal é provável que hoje o território português não mais existisse; além disso a vinda dele desencadeou o já tardio desenvolvimento nacional, e sofremos suas influências até hoje; mesmo a Inglaterra poderia ter perdido a guerra, pois sem a abertura dos portos ficaria sem um mercado para negociar, e com isso não conseguiria financiar suas outras atividades, como por exemplo a bélica.

Aos 200 anos só posso dizer que nunca uma pessoa teve tamanha personalização do ditado “se correr o bicho pega e se ficar o bicho come”.

Até a próxima semana.

Estado febril

Em primeiro lugar gostaria de me desculpar ao leitor que acessou o blog na segunda passada e não encontrou meu artigo novo como de costume, mas infelizmente não foi possível. Tentarei evitar que isso se repita. Obrigado.

Verão no Brasil, tudo igual como todo o ano, muito sol e calor, chuvas de verão e luta contra a Dengue. Calma, esse verão temos novidade… Ninguém tá falando de Dengue, erradicamos a doença? Finalmente, chega das propagandas do Governo Federal sobre água acumulada em garrafas e vasos de plantas, vamos poder voltar a regar nossas plantinhas…

Infelizmente a realidade nossa não é tão boa assim, quem pôde acompanhar os jornais nos últimos dias pôde perceber a luta para se vacinar contra a febre amarela, a nova coqueluche do verão nacional. E tal pânico com a doença só está se desenvolvendo por duas razões. A primeira é que todos achavam que a doença estava erradicada, fato que não é verdade, mas estava e ainda está controlada. A febre amarela é uma doença de difícil transmissão por natureza e ainda mais difícil em zonas urbanas. Assim reforço que não há riscos.

O segundo motivo é a vontade sádica principalmente por parte das grandes emissoras de TV aberta de verem o circo pegar fogo, em todos os jornais matérias divulgando como alguns casos (isolados) desenvolveram a doença e como é perigosa. O auge veio ontem por intermédio da Rede Globo que levou ao ar um homem para contar o quão perigoso e mortal é a doença e reforçando que todos deviam vacinar-se.

Essa correria aos postos é infindável, exceto por regiões específicas do Brasil não existem riscos de epidemia como tentam divulgar os canais de TV aberta. Ao leitor que não gosta de perder tempo em filas inúteis dou um conselho. Vá se preocupar com coisas realmente sérias como a votação no senado para a nova CPMF.

Eu avisei que nós é que íamos pagar a conta, e lá se vai a promessa do cinismo…