O portuga que “furou” no Iraque

Carlos fino

Carlos Fino é o jornalista português que ficou conhecido no Brasil por cobrir a guerra do Iraque, e dar o furo dos primeiros ataques a Bagdá. Sua estréia no jornalismo internacional aconteceu nos anos 70, quando era correspondente em Moscou da RTP (Rádio e Televisão de Portugal), a Tv estatal portuguesa.

“Repórter acidental”, como ele mesmo admite, presenciou algumas das grandes passagens nos últimos anos como jornalista. No início do milênio entregou sua carteira de jornalista ao governo português e veio para o Brasil, ser empregado da embaixada.

Neste mês de outubro, em uma rápida passagem por São Paulo, Carlos Fino deu-me uma entrevista, que está transcrita abaixo porque o youtube não aceitou o vídeo que foi gravado… As respostas estão com “sotaque”, mais uma vez o português europeu invade nosso blogue.

Foca em Foco: O senhor trabalhou durante algum tempo como correspondente internacional da RTP, e depois deixou o trabalho como jornalista para se tornar conselheiro de imprensa da embaixada portuguesa no Brasil. Com qual das duas vertentes o senhor gosta mais de trabalhar?

Carlos Fino: São realidades completamente diferentes. O jornalismo, em particular o jornalismo internacional, foi o que eu sempre pratiquei por razões da minha própria vida e de fortuna, no fundo, no sentido clássico camoniano. É uma actividade extremamente interessante, talvez a melhor profissão do mundo, porque ela conjuga aspectos de várias outras. Tem um pouco de ciência, de sociologia, de diplomacia também, e pode se tornar às vezes num exercício de cidadania. É muito livre, quando, de facto, não todos os jornalistas, mas aqueles jornalistas que por questões até de sorte, ou de vida, conseguem estar numa posição que lhes permite exercer esta profissão cá fora, e foi o meu caso.

Conservo muito boa memória dos anos em que fui jornalista, que inclusive me permitiram acompanhar processos históricos. A queda do comunismo na Europa de Leste, a democratização em uma série de países, o lançamento da moeda única europeia, as primeiras manifestações contra a globalização em Seattle, nos EUA, enfim, o conjunto dos processos históricos que eu pude acompanhar graças ao jornalismo. Isso é muito gratificante, poder estar por dentro dos processos, seguir. A transformação da própria União Sovietica, foram coisas inesquecíveis, sobretudo este último periodo, o periodo da Perestroika em que houve toda uma transformação histórica da Europa de Leste, e por outro lado também alguns conflitos, que eu tive a sorte de passar, sem consequências graves do ponto de vista físico.

Eu sou jornalista. No fundo eu sou um repórter, é o que eu sou intrinsecamente, é o que eu fui toda a vida. A possibilidade que abriu, justamente através do jornalismo e do Iraque, de vir para o Brasil trabalhar como conselheiro de imprensa foi uma oportunidade que eu achei que não poderia perder também, porque eu não conhecia esta parte do mundo. Estando aqui isso me possibilita conhecer, conhecer o mundo de língua portuguesa do qual depende o próprio futuro da língua, pois se há um futuro para a língua portuguesa, ele está no Brasil pelo simples facto de vocês serem 180 milhões e terem o peso específico geopolítico que têm, como este é um país continente, né? A problemática toda da relação com Portugal, que também me interessa, e é fascinante. Esta dicotomia que os brasileiros têm, com o próprio país Portugal, que esteve na sua origem… Por um lado há os aspectos anedóticos, o aspecto de quase não querer reconhecer esta herança mas ao mesmo tempo todos acabam por se lembrar que têm uma raiz portuguesa, ou quase todos. Digamos que há uma matriz portuguesa que o brasileiro muitas vezes quase que não quer reconhecer, e isto é um problema de identidade, fariam bem em reconhecê-la nos seus aspectos positivos, no meu entender, e é uma problemática que também me interessa, e me interessa trabalhar até como diplomata.

Depois, o conhecimento deste outro mundo que é a diplomacia: o que se exige, como uma postura completamente diferente do jornalismo. O jornalismo é mais imediato, tem uma intervenção mais visível, a diplomacia é mais subtil, mais um trabalho de bastidores. É um lento cerzir de relações de contrução, às vezes também com aspectos midiaticos, de grande visibilidade, mas tem esse outro lado. E tem sido uma experiência bastante gratificante pra mim. Sobretudo esta possibilidade de estar no Brasil, que é um país que eu nao conhecia, e de viver esta problemática da relação, e da língua.

Do ponto de vista deontológico são coisas diferentes, eu não exerço mais a profissão de jornalista, ela está entre parênteses. Não é que eu tenha deixado de ser intrinsecamente um jornalista, eu acho que não vou deixar de ser, sou essencialmente um repórter. Mas o exercício desta nova qualidade, que é a qualidade de diplomata, também é um exercício que tem sido interessante pra mim. Eu vejo mais como um complemento da minha formação geral, é assim que eu estou vivendo com as oportunidades que ela também cria.

Foca: O senhor foi ganhador do prêmio Gazeta. Qual foi a reportagem que lhe deu este prêmio, e qual a importância para o jornalista de ter este reconhecimento?

Fino: Este prémio foi pela cobertura da primeira guerra da Chechénia, no início dos anos 90. Claro, toda gente gosta de perceber seu trabalho distinguido. Eu, particularmente, nunca fiz questão de me candidatar a prémios, nunca apresentei candidatura. Sempre considerei que se o meu trabalho era bom e era apreciado então o prémio viria, eu esperaria que alguém o reconhecesse. Nunca fiz lobby por ele nem fiz qualquer diligência para receber qualquer prémio. Todos os prémios que tive surgiram espontaneamente das organizações. Não me candidatei a nada, foram as organizações que decidiram dar estes prémios; e este da Gazeta também.

Claro, toda gente gosta de ver seu trabalho reconhecido. Pra mim foi particularmente gratificante aqui no Brasil, por questão do trabalho no Iraque. Porque não foi só o facto de terem destacado que nós tínhamos sido os primeiros a dar a notícia do início da guerra, isso é uma desculpa relativa, porque é uma desculpa de oportunidade e não de conteúdo. Sobretudo o reconhecimento que veio, paralelo a esse, aqui no Brasil, do conteúdo da nossa informação, e da forma como ela estava a ser feita. Isso foi particularmente gratificante.

Foca: Qual é a necessidade de um jornalista como mediador, nessa era de novas tecnologias e de rapidez da informação? Qual a necessidade de um correspondente internacional estar presente no local?

Fino: A necesidade da presença de um repórter no local parece-me óbvia. Nada substitui aquilo que pode dar o repórter no local. O estado de espírito, aquilo que as pessoas pensam, os pormenores que fazem toda a diferença só o repórter no local pode dar. Por mais e melhores que sejam os analistas nas redações, e por mais global que seja a visão geral que possam ter, por mais armados que possam estar das teorias, capazes de intrepretar o que acontece no terreno, se não houver essa reportagem do terreno, dando os elementos que fazem a diferença, não haverá informação propriamente dita. Quer dizer, a diferença é feita pelo repórter.

A questão da mediação é um problema que está colocado aos jornalistas, a ponto de nos interrogarmos seainda há lugar para o jornalismo, porque se toda a gente, a qualquer momento, em qualquer parte do mundo, com qualquer coisinha pode reportar o que está acontecendo, que papel ainda resta para o jornalista? Eu, pessoalmente, tendo a acreditar que a mediação continua a ser necessária. Não há informação bruta, dada como tal, a informação é sempre um trabalho de contextualização e portanto haverá sempre a necessidade do jornalismo. Eu diria que há até mais, hoje em dia, sob pena de nós podermos correr o risco de um terrorismo informativo, em que ninguém se entende, em que tudo é possível, estar no ar a qualquer momento, a qualquer hora, diz-se o que quer, e não há ninguém que tenha as capacidades treinadas, adquiridas, e o conhecimento pra contextualizar. Isso continua a ser necessário. Acho eu.

Mas os jornalistas têm que provar que merecem continuar a ter este papel. Pra isso precisam estudar, estar mais informados, e estar atentos à sua realidade. Ao mesmo tempo precisam ter a coragem de lutar pelo seu próprio estatuto, porque o jornalismo não pode ser esta mudança cíclica de gerações em que cada uma está disposta a substituir a anterior, e cada vez há menos lugar para os seniors, para a maturidade, para a reflaxão, e isso só se consegue com a organização dos jornalistas e com os jornalistas a lutarem pelo seu próprio estatuto, que no meu entender deveria ser reforçado.

Foca: O senhor conhece a imprensa brasileira e a imprensa portuguesa, tendo em vista isso, o que falta à imprensa brasileira que existe na portuguesa, ou vice-versa?

Fino: Falta a gente se conhecer melhor e colaborar mais. Isso é que falta. O nivel de comunicacao entre portugal e o brasil nao corresponde ao nivel que as relações têm entre os dois países, em todas as outras áreas. E isso é lamentável. Nós temos mais a ganhar se nos conhecermos melhor e colaborarmos mais, explorando melhor esta riqueza imensa que é falarmos e entendermos na mesma língua. É absurdo que não haja acordos entre jornais portugueses e jornais brasileiros, sites portugueses e sites brasileiros, blogues portugueses e blogues brasileiros, tal como há com as universidades, tal como há com essas outras associações profissionais. Há um déficit de comunicação entre Portugal e o Brasil, e ele precisa ser preenchido para termos uma história comum mais inteligente.

 

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Uma resposta

  1. Aqui de Portugal, digo que Carlos Fino foi (é) dos melhores jornalistas que vi.
    Tem uma óptima dicção, voz bem colocada, mas principalmente, vi poucos a preparar e a dominar tão bem as matérias que apresentam.
    Faz muita falta ao jornalismo. Espero que volte.

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